Indigente, perambulo pela rua, na juventude era suportável e parecia ter fim um dia, mas na velhice quem venceu foi o desânimo e a doença se aproxima, vivo pra baixo e pra cima rolando como as folhas do velho abacateiro que me serve de teto...
Quem me vê, sente a pena que no auge da vida me faltava, parecia que eu era eterno e a boa vida era minha vizinha, neguei ajuda que mudaria meu destino, vivia de farras e pequenos delitos, não posso culpar ninguém a não ser meus desatinos...
Hoje, nego a dor que queima e a solidão que assola a alma, a tristeza que invade rasgando em pedaços a esperança que ainda me resta, nego o que se foi e não volta, o presente que mascara uma existência falsa, o futuro que já está moldado pelos meus passos titubeantes ...
As vezes uso da mentira pra continuar vivendo, sorrio para as pessoas como se ainda fosse confiante, ando com naturalidade nas aparências, as carnes trêmulas e as pernas cansadas, as mãos procurando apoio a espera de afagos reais não vacilantes...
Nego o sabor amargo das desditas, palavras que marcaram, que me jogaram em abismos profundos e me colocaram como párea na peleja da vida, nego com sofreguidão o manto da desonra, o lugar nas sombras sem direito ao sol como se fosse um eterno errante...
Mendigo do pão e da felicidade alheia nem que seja um pedaço, empresto um sorriso quando o meu se esconde, busco nos olhares de felicidade dos que me rodeiam fazendo refletir nos meus que estão opacos, reparto o que tenho empurrando com dificuldade as tristezas pra lugares distantes...
Nego essa exclusão em que vivo, espero que um dia a sorte mude, perambulo pelas ruas da cidade iluminada, que por tudo e por nada sinto que sem piedade me aperta, espero que essa vida acabe e que seja breve, que o céu me perdoe e seja meu porto e um anjo caridoso venha ser meu guia...
Nenhum comentário:
Postar um comentário