Deitado, sentindo nas costas o colchão sujo e fino mais parecido um pastel amanhecido, um dos braços embaixo da cabeça ajudava o travesseiro tornar mais confortável seu descanso infindável. A perna esquerda apoiada no joelho vez ou outra a balançava e nesse movimento observava um painel bizarro que se tornara o estrado feito de chapa de metal da cama do companheiro de cima. Escritas de todas as cores, restos de papeis colados e rasgados deixando claro que todos que estiveram naquela cama queriam deixar suas marcas. Um desenho mal feito de uma mulher nua, expressando talvez o desejo de alguém e ao lado um Santinho colado, onde as partes das letras que ditava a prece foram drasticamente rabiscadas. Rabisco de todas as formas, de demônios possíveis e imagináveis, fotos de pessoas todas rabiscadas, sinais de dedos e sangues e nas paredes capas de todas as celebridades.
Ao dar-se conta disso riu perguntando-se; será que os artistas e cantores sabiam que eles cobriam muitas paredes dos presídios? Um palpite simplório, os artistas vendem ilusões e se tem um lugar que necessita dessa particularidade é ali! Desde que chegou, seus sonhos foram bloqueados e postergados, tudo que pensa tem data marcada no tempo e percebe agora que o tempo não dará tempo para sua vida física. Seus pensamentos foram interrompidos pelos gemidos de André, seus dentes estão acabados, a dor insuportável lhe judiava e ninguém lá fora se penalizaria dessa criatura.
Observou Ladário se levantar da cama ao lado vasculhando uma velha lata de bolachas e repassando a André seu último comprimido. Ladário cometeu quatro assassinatos, já estava ali a mais de quinze anos, suas pernas estavam cheias de feridas, olhar cansado de ha muito perdera as características do homem temido e o orgulho com que ali chegara.
Juracy, que estuprara duas senhora e um garoto, falava muito pouco, sua televisão era pequena, vez ou outra levava uns tapas acertando as imagens do jogo que passava, sofria todos os tipos de maus tratos, agradecia aos céus por não estar em seu lugar. Todos os detentos desaguavam suas magoas nos estupradores e ninguém os socorria, se isso acontecesse seria marcado, o corpo de Juracy parecia uma colcha de retalhos, na última agressão que sofrera, Munhoz da cela ao lado o retalhou com giletes, seu martírio já ia pra dezoito anos, dia pós dia...
Sentou-se encostando na parede fria, aceitando uma caneca de chá feita por Cirilo, se um dia alguém lhe falasse que tomaria um chá feito por um velho fogareiro dentro de um banheiro sem vaso todo rebentado,cuja o cheiro impregnava o ambiente pela manha e a tarde, de forma insuportável ele jamais creria. De todos ali, quem ainda recebia visitas era ele e Toledo, os outros, ninguém mais, nem mesmo o tal advogado.
Cirilo matou a esposa, o sogro e um cunhado por conta de heranças, narra essa história pelo menos duas vezes ao dia, se ninguém o está escutando ele fala sozinho e ainda lhe responde, lhes concede razões, de outras não, já sabe de cor cada passo dado dos amigos de cela e fatalmente Cirilo ficará louco se continuar assim. O carcereiro não dá ouvidos aos ditos "normais", a ele; nem o ouvem mais.
Mario Girondo era agressivo, o dono da cela, nada acontecia ali sem sua permissão, se é que algo diferente pudesse acontecer em um cômodo de três metros quadrados, mas era fato, se tinha uma réstia de luz, era dele primeiro! Ele fora pistoleiro, seus crimes eram coisas mandadas que ele executou muito bem. Estava preso por dois crimes mas e o resto? Nada do que ele contara era mentira, haja visto sua índole pra com os companheiros de cela.
Devolveu a caneca ao colega levantando-se e pediu permissão a Girondo pra subir nas grades, precisava respirar. Desviando das roupas estendidas pelos fios e evitando de pisar no tapete de Juracy, sim porque uma vez, apanhou muito dele, não sabia que não podia tocar em nada de seu, seus gritos não foram ouvidos e o carcereiro deixou claro naquele dia, que depois das grades era outro mundo. 1954; onde encontrar coragem pra esperar mais dois anos? Por muitas vezes pensou que enlouqueceria e estranhamente ainda estava vivo! Sentou na janela com as pernas para fora abraçando as grades, sentindo o vento em seu peito nu, o sol da tarde era um espetáculo inigualável, coisa que ele jamais teve tempo de notar e apreciar...
Um lagarto subiu no muro e correu livre para o outro lado causando-lhe inveja. A velha dor no estômago queimou por dentro, respirou fundo olhando as nuvens brancas, mais pareciam chumaços de algodão, se deu conta que o dia que dali saísse; iria tomar banho de chuva toda vez que ela caísse. Todas as coisas simples da vida que antes não prestava atenção lhes faziam falta. A vida lá fora corria, pessoas atarefadas passavam na rua, e elas não tem decididamente a noção do que é tédio. Ouvia o rádio da cela ao lado, tocava uma música que ele já dançara muito com sua antiga namorada, segundo seus parentes ela se mudou, casou e já é mãe.
Desde que cometera seu crime ha dez anos, dos quais um ano e pouco ficara escondido, não fez outra coisa a não ser pensar. Filho único de Doma Mariana, desde cedo adoentado e por conta disso seus desejos eram sempre atendidos, mas ele cresceu e o mal também. Sentiu o toque nas costas, era hora de descer outro detento iria tomar seu lugar para ver o mundo lá fora, pensou em escrever uma carta para sua mãe e desistiu, talvez fosse esse o motivo de tantos rabiscos pelo ambiente, escrever o que? Pedir perdão? Nada mais importava, suas vidas foram estraçalhadas ha muito tempo, teria sua liberdade encostando nos quarenta anos, começar o que?
Estudo que valesse a pena, profissão, nada dera valor, a rua, a cachaça era sua rotina, desrespeitoso; isso sim! Zombava dos amigos que estudavam e trabalhavam, a vida era um brinquedo e o que ela oferecia absorveu o lado destrutivo, sua cidade de pouco mais de vinte e cinco mil habitantes; todos conheciam suas bravatas e muitos lares pagaram caro por suas influencias.
Sentou novamente em sua cama, suas vistas escureceram momentaneamente e a dor intensa no estômago apareceu novamente , nos últimos tempos isso acontecia varias vezes ao dia. Balançou a cabeça como se espantasse esse mal, nesse momento André desceu da beliche e sentou do seu lado perguntando; Me ajuda a escrever uma carta? Vou morrer e meu povo precisa saber que sou mesmo inocente , estou aqui por um crime que não cometi e ninguém me dá créditos. Olhou o amigo e em seus olhos a verdade estava estampada!
- André, porque ninguém acreditou em você ?
- Túlio era meu amigo, crescemos juntos, depois virou inimigo de "morte" por coisas estúpidas, mas a ignorância, a juventude torna isso uma verdade, um motivo de orgulho e por tudo e por nada brigávamos. Depois de uma briga no bar na frente de todos; Túlio aparece morto num beco de rua e o tiro era da minha arma. Na briga alguém pegou minha arma e o esperou, não dei falta da arma, estava muito bêbado, ao chegar em casa a arma estava encima da mesa, no meu barraco e pouco depois já fui preso e jamais consegui provar nada. Eu sou pobre,e Túlio é filho de gente rica, lá daquelas bandas de onde vim e eu estou aqui!
- Acredito em você André, vou ajudá-lo em sua carta, mas você não morrerá não, aqui a gente morre de outra forma. Quando aqui cheguei meus piores anos foram esses em que você está agora, parece que nos dois primeiros anos algo vai acontecer, o céu se abrirá, um milagre se fará. Parentes e amigos nos escrevem, advogados, e a esperança é tão forte que nada nos derruba. Vamos sair daqui, retomar a vida, fazer tudo diferente e reparar os danos. Entra o terceiro ano, ai sim a realidade vai calçando e nos colocando em nosso lugar, aqui vemos claramente que somos culpados e a tristeza nos cobre com seu manto. Mesmo você sendo inocente, ainda assim é culpado, se tivesse levado outra vida não estaria aqui! Você ainda tem chances de rever o seu caso na justiça, nós outros não, enquanto esse dia não chega ha de encontrar forças dentro de si pra acomodar essas angústias.
Enquanto se falavam viu Cirilo tomando seu banho, o lençol ralo cobria a porta do banheiro, André se levantou e começou a andar pela cela, deitou em sua cama e viu o passado na sua frente, perderam-se as contas de quantos dias e noites andava em círculos como ele fazia. Girondo desceu da janela irritado e desceu o braço nas costas de André o moço caiu quase sem poder respirar, ninguém se mexeu pra ajudá-lo, ele mesmo já apanhou muito desse calhorda desumano!
O Palmeiras fez um gol, Juracy vibrou de alegria, a cortina do banheiro nem se mexeu, Ladário virou as costas e continuou a jogar paciência com seu baralho seboso. Toledo costurava uma velha meia , levantou a agulha lentamente observando o ocorrido e ele virou para o canto olhando a parede, passou o dedo nos riscos e uma lagrima desceu, não pelo amigo, mas por si. Descobriu que sempre fora um covarde, de todas as formas possíveis, a prisão faz isso, cada um dos detentos encontrava uma maneira de trabalhar suas dores e culpas, suas agressividades, maldades, auto piedades e loucuras, mas no fundo todos sabem quem são, essa realidade lá fora é mascarada, a liberdade é algo tão especial, a sensação de ser e ter mascara o que o individuo tem dentro de si, mas entre quatro paredes por anos a fio; faz explodir o que se tem dentro!
Adormeceu sentindo muita dor e acordou com um cheiro estranho, algo doce, deu tapas em alguns pernilongos e adormeceu novamente esperando ansioso pela hora do banho de sol pela manhã. Foi acordado aos solavancos, Cirilo o sacudia, os olhos dele eram de pavor! Pendurado nas grades, um lençol torcido cuidadosamente segurava o pescoço de André, sua língua para fora e os olhos abertos, a camisa com um dos botões abotoados desigual, levantou e tentou pegar o papel dentro dos seus dedos crispados, percebeu Juracy paralisado olhando para seu precioso tapete manchado de sangue, seguiu o caminho do sangue e se deparou com a garganta de Girondo quase decepada e a cabeça torcida, mal viu isso tudo em fração de segundos em meios aos gritos de Ladário, pedindo ajuda.
A cadeia sendo acordada em meia a tragédia, os gritos dele fez com que os outros presos começassem a bater nas grades e logo chegaram os guardas, o resto do dia para cada um deles intimamente teve seu desfecho, o seu foi péssimo! Ao relatar a "sua" verdade a André na tentativa de acalmá-lo, resultou nisso. O bilhete em suas mãos era simples; "Estou aqui por um crime que não cometi, saio dessa vida sendo o que dizem que sou, agora sim sou culpado duplamente, por mim e Girondo e meus amigos e mais ninguém sofrerá nas mãos desse covarde".
Girondo era ruim? Era. André era inocente ? Era. Teria mais isso em sua mente pelo resto da vida! Onde estaria Deus? Estaria vendo tudo? Contaria suas culpas? Encontraria algo de bom dentro de si que o aliviaria? Porque mais essa carga em sua vida?
Silvano terminou de ler a carta triste que lhe causou grandes desconfortos íntimos, a encontrara escondida dentro dos canos enferrujados da beliche, estava cuidadosamente enrolada, mais parecia um palito, ali naquelas linhas estavam escrito relatos de uma vida perdida exatamente como a sua, perguntou aos amigos; quem fora Joel Prado?
Ladário pigarreou depois de ler a carta sentindo saudade do amigo. Joel viveu aqui entre nós, mas faz seis anos que faleceu de câncer, ocupava essa cama que hoje é sua, era um moço bom e educado, saiu daqui para morrer, despediu-se e disse que voltaria na semana seguinte, mas o mal já estava alastrado e não o vimos mais, pelo menos ele está livre!
- Que crimes cometeu esse Joel?
- No meu entender Joel cometeu três erros graves, disse Ladário.
- Cirilo interpôs ; não, cometeu só um, matou o próprio pai!
- O pai não, corrigiu Juracy, que mais parecia um autista , olhando fixo para televisão; o padrasto era muito ruim, batia muito na irmã dele, nele e na mãe.
- Não sabemos a real verdade disse Toledo, ele não falava muito de si, falava com ele mesmo, seu silêncio fazia muito barulho disse rindo.
- Ladário olhou feio para os amigos e disse; será que posso falar agora? Continuando...
Na época que ele cometeu o crime eu tinha uma namorada que ainda me visitava, ela me relatou dessa forma; um par de meses antes dele aqui chegar andou correndo da justiça por uns tempos. O que se comentava na cidade é que foi a irmã dele que matou o padrasto. O laudo pericial não foi divulgado corretamente e o tal padrasto morreu na verdade envenenado, os dois tiros no peito foram dados depois para despistar.
- Mas as balas era do seu revolver, comentou Cirilo.
- Sim, as balas eram de sua arma e ouviram ele atirar e sair correndo ao entardecer, mas o fato é que essa minha namorada disse que o velho já estava morto, a mocinha cansou de ver a mãe ser maltratada fisicamente por ele e ela também . E o nosso amigo ao chegar em casa resolveu assumir a culpa. Segundo contaram, Joel foi leviano e irresponsável, um boa vida, mas para proteger as duas ele tomou essa atitude.
- sim, mas porque três erros? Perguntou Silvano.
- Primeiro; se meteu com gente da pior espécie, os "irresponsáveis". Eu cometi meus crimes, mas consciente, jamais fui irresponsável, sabia o que fazia e por que! Os ditos irresponsáveis não pensam, se comprometem e arrastam os outros para caminhos sem volta e depois não tem capacidade de agüentar as conseqüências, assim foi com André.
- Segundo; essa minha namorada relatou e todos aqui dos mais velhos sabem disso e o próprio Joel contava, disse rindo, a mulherada casada da cidade se rendia ao seu charme de forma comprometedora. E no dia do seu julgamento todos os jurados homens que eram no caso a maioria, carregavam na cabeça um enfeite colocado por ele. Então mesmo vendo irregularidades no caso o condenaram e assim se vingaram.
Todos na cela riram a vontade, mesmo que não fosse isso, seria essa a verdade ideal para aquela tarde quadrada!
- Terceiro; defendeu a irmã pagando por ela o crime, dessa forma reparando com sua mãe parte dos seus desatinos.
Mas nesse caso ele foi digno, livrou a irmã de uma sorte madrasta, comentou Toledo.
Nem tanto disse Ladário, nessa vida ninguém paga nada por ninguém, mas o fato é que esse amigo deixou saudades, foi amigo, alegrou nossos dias e parece que o Criador dele teve pena dele, o levou desse mundo lhe concedendo liberdade dupla, enquanto nós ainda estamos aqui.
Ladário se calou dando o assunto saudoso por encerrado, Silvano subiu na janela com a carta enroladinha entre os dedos, o sol batia na parede, dali a pouco atingiria sua cabeça, pode perceber que ninguém na sela era dono de nada, caiu em um lugar de veteranos forjados na dor e na solidão, podia não serem arrependidos, mas... Olhou por sobre os ombros, o tal Juracy estava couro e ossos, Ladário, Cirilo e Toledo se preparavam pra jogar baralhos, quatro pobres diabos e na semana seguinte chegaria mais um morto vivo para morar na cama abaixo da sua.
Respirou fundo abrindo o papel que nenhum dos detentos o quis e o soltou no vento, o papel caiu manso e foi sendo rolado pela grama aqui e ali...
A carta merecia sair também daquele lugar e mais, era como se ela queimasse seus dedos, acabara de se dar conta de um fato que o desgostou profundamente, fazia parte dos ditos "irresponsáveis" no entender de Ladário, teria coragem um dia de escrever sua história?
Por hora não...
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