quarta-feira, 19 de outubro de 2011

"Não se chuta cachorro morto"





 
Quantas vezes fazemos isso ao longo da vida? Quantas carcaças de cachorros guardamos na gaveta, na ilusão de que ainda podemos revive-las? Na ânsia de acertar os nosso passos falsos e muitas vezes na pretensão de que estamos fazendo isso para os outros sendo que, na verdade fazemos por nós mesmo.
        Em nossa casa mental a "perfeição" que nela reside é o Dom Divino, o tal Milagre propagado pelos homens que pregam a Fé. Essa perfeição é a marca de Deus em nós, mesmo que não cremos na existência Dele. Podemos negar a Paternidade Divina, mas não podemos olvidar a  hegemonia perfeita do Cosmos. Perfeição essa que foge a compreensão humana e é onde a ciência galga a cada dia novas descobertas. A cada "mistério" revelado sob a luz da compreensão a nível cientifico e tecnológico surgem novas perguntas sem respostas.
        No exterior nós podemos até nos perder tentando entender a complexidade da vida física, ou viver ao largo, sem que essa questão seja um fato relevante. Mas em nosso interior há outro mundo, e nesse feliz ou desgraçadamente vivenciamos, o devassamos por gosto ou por obrigação, com ou sem a compreensão do mesmo.
        Temos a ilusão de que podemos corrigir ou recuperar algo que já se foi ou se perdeu, não corrigimos nem recuperamos. Cada ato ou situação podemos atuar no momento em que se está sendo aplicado, pois que muito rapidamente, se torna passado! Devemos sim ser incansáveis no tocante a corrigir erros e moldar nossas atitudes, mas entendendo que é sempre um novo ato. Um broto verde que nasce de um tronco velho e quase apodrecido, mesmo que seja a mesma árvore esse broto é um novo recomeço, o tronco não voltará a viver.
        As feras interiores, aquelas que nos machucam de verdade e que podemos escondê-la  até mesmo de nós, se transformam em cachorros mortos, e nós temos dificuldades de sepultá-las. Não aceitamos que vivemos para perder, eis ai toda a nossa dificuldade para encontrar o tal equilíbrio. Essa "perda" se processa em cada ato de respirar, quanto mais em nossas atitudes ou acontecimentos que são de nossa compreensão, ou que foge dele.  
        Amores, saúde, família, amizades, bens materiais, dons, são como soldados em batalhas, alguns sobrevivem para contar a história, muitos perecem e viram saudades ou mágoas, mas  no final sempre um passado. Bom seria se já pudéssemos limpar com maestria as nossas gavetas, se pudéssemos estar atentos aos filhotes de cachorros que são saltitantes e cheios de vida, que latem e correm nos convidando pra uma nova jornada, ou então regar o broto novo tendo a certeza que uma nova árvore se formará e dessa vez sermos mais laboriosos.
        Os cachorros mortos, esses devemos reverenciá-los por termos vivido e aprendido, mas devemos sepultá-los, quem vive com os olhos no passado, perde a experiência do presente e a beleza do futuro que nos convida para novas oportunidades. Dois corpos não cabem no mesmo espaço, o presente precisa de liberdade de ação, e o futuro ainda será.
        É humano, compreensível e normal chorarmos a morte do "cachorro", mas  é necessário desfazer-se de sua carcaça, sepultá-lo e fazermos um novo recomeço....







Um comentário:

  1. Uau, todos os textos estão ótimos, mas este é sensacional!!! Parabéns, amiga Léo!!! Beijos

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